quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

MMA: além dos ringues, seja lá de qual forma for...

Gostaria de compartilhar mais uma reflexão com vocês. Talvez você não concorde com algo ou até mesmo com tudo do que encontra-se a seguir, mas convido você ao menos a refletir sobre as minhas colocações, especialmente você que se diz cristão. Recentemente me peguei aguardando a luta do ano de 2013 entre Chris Weidman e Anderson Silva pelo cinturão dos pesos médio do UFC 168. A cena que me deparei foi a mesma que todos os espectadores tiveram; uma fratura chocante, que provoca arrepios só de pensar. Antes, porém, da luta mais aguardada, também, vi duas mulheres se espancando, sangrando, além de outros marmanjos trocando socos, cotoveladas, chutes e coisas típicas do MMA, a modalidade esportiva que mais cresce no mundo do século XXI.

Após a luta, me deparei com as horas avançadas da madrugada e com a seguinte sensação: é para isso que serve o meu tempo? Talvez se o resultado da luta fosse outro, com a vitória do lutador brasileiro, essa impressão não fosse tão nítida e imediata, contudo, independente do saldo da luta e do falso patriotismo despertado pela transmissão, algo merece a atenção, especialmente dos cristãos: “Tenham cuidado com a maneira como vocês vivem; que não seja como insensatos, mas como sábios, aproveitando ao máximo cada oportunidade, porque os dias são maus” (Efésios 5:15-16). Paulo quando escreveu isso à igreja de Éfeso, estava ressaltando os valores a serem cultivados na vida cristã, como o amor uns pelos outros, e alertando aquela gente – e a todos os cristãos – sobre o perigo do consentimento com a imoralidade e a ociosidade. Em resumo, o apóstolo de Cristo estava chamando a atenção para a necessidade do cristão viver com a guarda alta, com a atenção redobrada, afinal, se não bastasse o sistema decaído desse mundo, a própria mente humana já é suficiente para conduzir o homem por caminhos que o afastam da vontade de Deus.

Isso não quer dizer que nós cristãos não podemos nos entreter, ter um tempo de descontração e divertimento, afinal, o próprio Deus, em sua sabedoria eterna nos ensina que o descanso é importante para a vida: “Foi isto que o Senhor ordenou: Amanhã será dia de descanso, sábado consagrado ao Senhor” (Êxodo 16.23). Mas qual o problema, então? Em que firo a Palavra de Deus, gastando meu tempo em frente à TV, assistindo um evento esportivo de MMA? Pois bem, não pretendo ser conclusivo com a minha análise, mas também, longe de ser leviano, é preciso pensar em algumas causas e consequências envolvidas no simples ato de gastar um tempo, seja só ou com amigos, diante de um evento como esse. Algumas perguntas precisam ser feitas para nos ajudar a refletir: Quais são as origens do MMA e em que os organizadores dos eventos dessa modalidade se inspiraram? Por que o MMA é uma das modalidades esportivas que mais crescem no mundo? O que atraem tanto a atenção do público nesses eventos de lutas marciais? Será que a Bíblia possui princípios que nos ajudam a avaliar esse evento e a prática dessas atividades? É sensato ao cristão manter algum vínculo com essa modalidade? Como cristão, será que tenho a mesma disposição para o exercício espiritual como tenho para investir na contemplação ou até mesmo na prática dessas atividades?

Notícias sobre o MMA, que significa, em inglês, Artes Marciais Mistas, apontam a origem da modalidade para a família Gracie, por volta de 1930, que objetivava demonstrar a superioridade do jiu-jitsu – uma das lutas marciais – diante das demais lutas. Na década de 90, por intermédio de um dos Gracie, nos Estados Unidos, surgiu o evento UFC, que popularizou o MMA em todo o mundo, se tornando, na atualidade, uma marca que movimenta bilhões de dólares por ano. Contudo, se analisarmos mais profundamente os eventos de MMA, voltando mais na história, não é incomum encontrarmos semelhanças com eventos de lutas mais antigos. Os gladiadores romanos – escravos, criminosos e homens livres – tiveram seu auge na história entre o século 2 a.C. e o século 5 d.C. A busca por entreter o povo fez do Império Romano um promotor de eventos de lutas, muitas delas, com muito sangue e morte. Muitos gladiadores ganharam fama, ostentando a força e robustez do homem, todavia, junto a esses homens hábeis no manuseio de armas, os espetáculos também contavam com feras – como tigres e leões – e até mesmo com cristãos condenados ao martírio. Não é difícil imaginar o resultado final de muitas dessas lutas, que eram um ícone da banalização da vida humana em favor de um governo arrogante, ostentador de poder e sem temor a Deus. Se voltarmos ainda mais no tempo, encontraremos as lutas orientais, muitas com o princípio de auto-defesa e outras como instrumento de guerra. Assim como entre os gladiadores, muitos praticantes das artes marciais se tornaram símbolos de força e respeito entre seu povo. Enfim, além das atrocidades já mencionadas, no histórico de muitas dessas lutas encontra-se a tentativa humana de se sobressair perante o seu semelhante pela capacidade de agredir e impor-se com ameaças à integridade física alheia.

Assim como na Roma Antiga, o que atraía a atenção do público era a apresentação pública da desgraça alheia. As pessoas da antiguidade comungavam de uma mistura de ojeriza e excitação diante dos resultados da luta. Sangue, quedas, brutalidades, humilhação e, até mesmo, a morte estavam entre os motivos da expectação nos eventos de gladiadores. É essa mesma sensação que move, nos dias atuais, o público do telejornalismo policial, dos reality shows, enfim, dos eventos de MMA da vida. Até aqui, se você é um adepto ou apreciador do MMA, acredito que esteja um tanto inquieto, todavia, desafio-lhe, mais uma vez, a considerar os fatos e algumas análises dos mesmos antes de imprimir os achismos e gostos pessoais. Espero que não pare por aqui, especialmente se deseja conhecer alguns princípios bíblicos que precisamos considerar para analisar melhor o assunto. Por isso, vamos continuar a reflexão.

Na Bíblia, em Êxodo 21.12-14 podemos encontrar o seguinte texto: "Quem ferir um homem, vindo a matá-lo, terá que ser executado. Todavia, se não o fez intencionalmente, mas Deus o permitiu, designei um lugar para onde poderá fugir. Mas se alguém tiver planejado matar outro deliberadamente, tire-o até mesmo do meu altar e mate-o”. O texto que acabamos de ler faz parte das leis dadas por Deus ao povo de Israel, a fim de que esse povo vivesse em conformidade com a vontade divina. O termo ‘ferir’, do hebraico nakah, também pode ser entendido como golpear, bater, atacar, destruir, espancar, abater, entre outros. Pelo texto, parece estar bem evidente que Deus não aprova tal atitude, tanto que propõe dura punição para aqueles que cometerem tal ato. Diante desse texto, como podemos avaliar o ato deliberado de duas pessoas entrarem num ringue com o objetivo de se sobressair por meio de socos, chutes e estrangulamentos? Será que as lutas marciais, especialmente da maneira que são aplicadas no MMA, não se enquadram dentro dessa orientação divina? E essas lutas, são capazes de matar alguém? Certamente que sim, não é mesmo?

Isso significa que não posso nem praticar tais modalidades como um esporte cotidiano? Não estou aqui para imprimir proibições e nem permissões, apenas promovendo uma reflexão, mas me parece que o problema das lutas não está tanto em treinos ou no exercício de defesa pessoal. Parece-me que as lutas começam a ferir o princípio bíblico quando as mesmas são usadas deliberadamente contra outro semelhante, quando para agredir alguém, como no caso do MMA ou até algumas modalidades olímpicas, como o boxe. Na igreja em que estamos, por nossa iniciativa, estimulamos a prática do jiu-jitsu, que é uma das lutas marciais praticadas no MMA, contudo, está bem claro no nosso projeto que não pretendemos formar lutadores, apenas pessoas que desejam se exercitar, aprendendo técnicas de defesa pessoal. Pode parecer muito sutil a diferença entre uma coisa e outra, mas não é, afinal, a simples prática desses exercícios, se proposta apenas como um treino, não objetiva a agressão contra alguma pessoa.

Mas você pode argumentar: ‘Os lutadores estão ali por livre e espontânea vontade, ao contrário, da época dos gladiadores romanos, quando alguns eram colocados nas arenas de maneira compulsória. O objetivo nem é matar alguém! E muitos lutadores até se abraçam depois das lutas, demonstrando amizade e profissionalismo!’ E eu lhe respondo: Realmente isso acontece muitas vezes, só que isso, mesmo sendo verdade, não exclui a lei de Deus exposta na Bíblia! Você também pode argumentar: ‘Mas Deus ordenou o povo dele a matar os inimigos, muitas vezes, sem deixar rastro algum!’. Isso também é verdade, só que você se esqueceu que Deus ordenou batalhas, enfim, a guerra, contra pessoas que não o amavam e queriam, por sua rebeldia, se imporem contra o povo de Deus. Nesses casos de guerra, a violência era necessária para cumprir o propósito de justiça divina, em que os homens eram apenas instrumentos de Deus. Uma coisa é bem diferente da outra. Mas continua a lhe convidar a refletir mais comigo, mesmo que seja para discordar.

Deus disse a Noé: Darei fim a todos os seres humanos, porque a terra encheu-se de violência por causa deles. Eu os destruirei juntamente com a terra” (Gênesis 6:13). O termo hebraico para ‘violência’ é chamas, que dá traz a ideia de agressão física, crueldade, maldade, enfim, algo errado, malicioso. Os textos bíblicos que fazem menção à violência, em momento algum, atribuem o termo a uma coisa que agrada Deus, pelo contrário, é fruto do pecado humano e Deus utiliza-se disso para punir os pecadores de coração rebelde. Portanto, como lidar com a prática comum aos eventos de MMA, que promovem cenas escancaradas de violência mútua? Ou os golpes nas lutas não são violência? Difícil não considera-los assim, não é? A Bíblia faz menção ao procedimento do cristão em várias passagens, dentre elas o ensino de Jesus Cristo: Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra” (Mateus 5:39). Aqui aparece novamente o termo ferir, que no grego rhapizō, quer dizer bater, ferir com as mãos, enfim, agressão contra outra pessoa. Nesse trecho Jesus usa a ilustração da agressão física para condenar a retaliação, ou seja, pagar o mal na mesma moeda. Se o próprio Cristo usa essa ilustração como uma tentativa de ensinar a renúncia pessoal, como poderia uma briga travada em um ringue produzir tal comportamento? Será que ao receber uma pancada, o lutador não alimenta dentro de si um desejo de revidar a agressão? Será que ao ser golpeado ele pensa no próximo como alvo de amor? Precisamos ser sinceros conosco mesmo e com a natureza humana para e responder essa pergunta.

A orientação do apóstolo Paulo a respeito da finalidade do agir cristão, em 1 Coríntios 10.31, diz assim: Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”. Como acreditar que esbofetear outra pessoa, sufocá-la, chutá-la, tirando sangue da mesma, a ponto de deixa-la desacordada, pode trazer glória a Deus, o criador do ser humano, que foi feito à imagem e semelhança dele mesmo? Sabe o que significa a expressão “imagem e semelhança”? Significa que fomos feitos como representantes de Deus diante de toda a criação, que temos mais valor do que qualquer outra criatura. É isso que traz a dignidade ao ser humano, e não a tentativa do homem de se impor sobre os demais. Se temos alguma dignidade, é porque fomos criados à imagem e semelhança do próprio Deus, o nosso criador. Portanto, durma com esse barulho e tente conciliar essa verdade com a prática competitiva do MMA. É possível dar glória ao criador de todas as coisas indo contra a integridade física da sua mais sublime criação: o ser humano?

Bem, aqui termino a minha breve reflexão, ciente de que o assunto não se esgota nessas linhas acima. Termino essa análise, convidando você, especialmente cristão, a refletir em fatos e não em gostos pessoais e achismos. Obrigado pela disposição de ser desafiado a pensar mais nas implicâncias dos nossos atos e comportamentos. Deus lhe abençoe com a presença maravilhosa do seu Espírito, o único meio de aceitarmos as verdades de Deus para nossas vidas.

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