Gostaria
de compartilhar mais uma reflexão com vocês. Talvez você não concorde com algo
ou até mesmo com tudo do que encontra-se a seguir, mas convido você ao menos a
refletir sobre as minhas colocações, especialmente você que se diz cristão. Recentemente
me peguei aguardando a luta do ano de 2013 entre Chris
Weidman e Anderson Silva pelo cinturão dos pesos médio do UFC 168. A cena que
me deparei foi a mesma que todos os espectadores tiveram; uma fratura chocante,
que provoca arrepios só de pensar. Antes, porém, da luta mais aguardada,
também, vi duas mulheres se espancando, sangrando, além de outros marmanjos
trocando socos, cotoveladas, chutes e coisas típicas do MMA, a modalidade esportiva
que mais cresce no mundo do século XXI.
Após a luta, me deparei com as horas avançadas da madrugada e
com a seguinte sensação: é para isso que serve o meu tempo? Talvez se o
resultado da luta fosse outro, com a vitória do lutador brasileiro, essa
impressão não fosse tão nítida e imediata, contudo, independente do saldo da
luta e do falso patriotismo despertado pela transmissão, algo merece a atenção,
especialmente dos cristãos: “Tenham
cuidado com a maneira como vocês vivem; que não seja como insensatos, mas como
sábios, aproveitando ao máximo cada oportunidade, porque os dias são maus” (Efésios
5:15-16). Paulo
quando escreveu isso à igreja de Éfeso, estava ressaltando os valores a serem
cultivados na vida cristã, como o amor uns pelos outros, e alertando aquela
gente – e a todos os cristãos – sobre o perigo do consentimento com a
imoralidade e a ociosidade. Em resumo, o apóstolo de Cristo estava chamando a
atenção para a necessidade do cristão viver com a guarda alta, com a atenção redobrada,
afinal, se não bastasse o sistema decaído desse mundo, a própria mente humana
já é suficiente para conduzir o homem por caminhos que o afastam da vontade de
Deus.
Isso
não quer dizer que nós cristãos não podemos nos entreter, ter um tempo de
descontração e divertimento, afinal, o próprio Deus, em sua sabedoria eterna
nos ensina que o descanso é importante para a vida: “Foi isto que o Senhor ordenou: Amanhã será dia de descanso,
sábado consagrado ao Senhor” (Êxodo 16.23). Mas qual o problema, então?
Em que firo a Palavra de Deus, gastando meu tempo em frente à TV, assistindo um
evento esportivo de MMA? Pois bem, não pretendo ser conclusivo com a minha
análise, mas também, longe de ser leviano, é preciso pensar em algumas causas e
consequências envolvidas no simples ato de gastar um tempo, seja só ou com
amigos, diante de um evento como esse. Algumas perguntas precisam ser feitas
para nos ajudar a refletir: Quais são as origens do MMA e em que os
organizadores dos eventos dessa modalidade se inspiraram? Por que o MMA é uma
das modalidades esportivas que mais crescem no mundo? O que atraem tanto a
atenção do público nesses eventos de lutas marciais? Será que a Bíblia possui
princípios que nos ajudam a avaliar esse evento e a prática dessas atividades?
É sensato ao cristão manter algum vínculo com essa modalidade? Como cristão,
será que tenho a mesma disposição para o exercício espiritual como tenho para
investir na contemplação ou até mesmo na prática dessas atividades?
Notícias
sobre o MMA, que significa, em inglês, Artes Marciais Mistas, apontam a origem
da modalidade para a família Gracie, por volta de 1930, que objetivava
demonstrar a superioridade do jiu-jitsu – uma das lutas marciais – diante das
demais lutas. Na década de 90, por intermédio de um dos Gracie, nos Estados
Unidos, surgiu o evento UFC, que popularizou o MMA em todo o mundo, se
tornando, na atualidade, uma marca que movimenta bilhões de dólares por ano.
Contudo, se analisarmos mais profundamente os eventos de MMA, voltando mais na
história, não é incomum encontrarmos semelhanças com eventos de lutas mais
antigos. Os gladiadores romanos – escravos, criminosos e homens livres –
tiveram seu auge na história entre o século 2 a.C. e o século 5 d.C. A busca
por entreter o povo fez do Império Romano um promotor de eventos de lutas,
muitas delas, com muito sangue e morte. Muitos gladiadores ganharam fama,
ostentando a força e robustez do homem, todavia, junto a esses homens hábeis no
manuseio de armas, os espetáculos também contavam com feras – como tigres e
leões – e até mesmo com cristãos condenados ao martírio. Não é difícil imaginar
o resultado final de muitas dessas lutas, que eram um ícone da banalização da
vida humana em favor de um governo arrogante, ostentador de poder e sem temor a
Deus. Se voltarmos ainda mais no tempo, encontraremos as lutas orientais,
muitas com o princípio de auto-defesa e outras como instrumento de guerra.
Assim como entre os gladiadores, muitos praticantes das artes marciais se
tornaram símbolos de força e respeito entre seu povo. Enfim, além das
atrocidades já mencionadas, no histórico de muitas dessas lutas encontra-se a
tentativa humana de se sobressair perante o seu semelhante pela capacidade de
agredir e impor-se com ameaças à integridade física alheia.
Assim
como na Roma Antiga, o que atraía a atenção do público era a apresentação
pública da desgraça alheia. As pessoas da antiguidade comungavam de uma mistura
de ojeriza e excitação diante dos resultados da luta. Sangue, quedas,
brutalidades, humilhação e, até mesmo, a morte estavam entre os motivos da
expectação nos eventos de gladiadores. É essa mesma sensação que move, nos dias
atuais, o público do telejornalismo policial, dos reality shows, enfim, dos eventos de MMA da vida. Até aqui, se você
é um adepto ou apreciador do MMA, acredito que esteja um tanto inquieto, todavia,
desafio-lhe, mais uma vez, a considerar os fatos e algumas análises dos mesmos
antes de imprimir os achismos e gostos pessoais. Espero que não pare por aqui, especialmente
se deseja conhecer alguns princípios bíblicos que precisamos considerar para
analisar melhor o assunto. Por isso, vamos continuar a reflexão.
Na
Bíblia, em Êxodo 21.12-14 podemos encontrar o seguinte texto: "Quem
ferir um homem, vindo a matá-lo,
terá que ser executado. Todavia, se não o fez intencionalmente, mas Deus
o permitiu, designei um lugar para onde poderá fugir. Mas se alguém
tiver planejado matar outro deliberadamente, tire-o até mesmo do meu altar e
mate-o”. O texto que acabamos de ler faz parte das leis dadas
por Deus ao povo de Israel, a fim de que esse povo vivesse em conformidade com
a vontade divina. O termo ‘ferir’, do hebraico nakah, também pode ser entendido como golpear, bater, atacar, destruir,
espancar, abater, entre outros. Pelo texto, parece estar bem evidente que Deus não
aprova tal atitude, tanto que propõe dura punição para aqueles que cometerem
tal ato. Diante desse texto, como podemos avaliar o ato deliberado de duas
pessoas entrarem num ringue com o objetivo de se sobressair por meio de socos,
chutes e estrangulamentos? Será que as lutas marciais, especialmente da maneira
que são aplicadas no MMA, não se enquadram dentro dessa orientação divina? E
essas lutas, são capazes de matar alguém? Certamente que sim, não é mesmo?
Isso
significa que não posso nem praticar tais modalidades como um esporte
cotidiano? Não estou aqui para imprimir proibições e nem permissões, apenas
promovendo uma reflexão, mas me parece que o problema das lutas não está tanto
em treinos ou no exercício de defesa pessoal. Parece-me que as lutas começam a
ferir o princípio bíblico quando as mesmas são usadas deliberadamente contra
outro semelhante, quando para agredir alguém, como no caso do MMA ou até
algumas modalidades olímpicas, como o boxe. Na igreja em que estamos, por nossa
iniciativa, estimulamos a prática do jiu-jitsu, que é uma das lutas marciais
praticadas no MMA, contudo, está bem claro no nosso projeto que não pretendemos
formar lutadores, apenas pessoas que desejam se exercitar, aprendendo técnicas
de defesa pessoal. Pode parecer muito sutil a diferença entre uma coisa e
outra, mas não é, afinal, a simples prática desses exercícios, se proposta apenas
como um treino, não objetiva a agressão contra alguma pessoa.
Mas
você pode argumentar: ‘Os lutadores estão ali por livre e espontânea vontade,
ao contrário, da época dos gladiadores romanos, quando alguns eram colocados nas
arenas de maneira compulsória. O objetivo nem é matar alguém! E muitos
lutadores até se abraçam depois das lutas, demonstrando amizade e
profissionalismo!’ E eu lhe respondo: Realmente isso acontece muitas vezes, só
que isso, mesmo sendo verdade, não exclui a lei de Deus exposta na Bíblia! Você
também pode argumentar: ‘Mas Deus ordenou o povo dele a matar os inimigos,
muitas vezes, sem deixar rastro algum!’. Isso também é verdade, só que você se
esqueceu que Deus ordenou batalhas, enfim, a guerra, contra pessoas que não o
amavam e queriam, por sua rebeldia, se imporem contra o povo de Deus. Nesses
casos de guerra, a violência era necessária para cumprir o propósito de justiça
divina, em que os homens eram apenas instrumentos de Deus. Uma coisa é bem
diferente da outra. Mas continua a lhe convidar a refletir mais comigo, mesmo
que seja para discordar.
“Deus disse a
Noé: Darei fim a todos os seres humanos, porque a terra encheu-se de violência
por causa deles. Eu os destruirei juntamente com a terra” (Gênesis 6:13). O termo
hebraico para ‘violência’ é chamas,
que dá traz a ideia de agressão física, crueldade, maldade, enfim, algo errado,
malicioso. Os textos bíblicos que fazem menção à violência, em momento algum,
atribuem o termo a uma coisa que agrada Deus, pelo contrário, é fruto do pecado
humano e Deus utiliza-se disso para punir os pecadores de coração rebelde.
Portanto, como lidar com a prática comum aos eventos de MMA, que promovem cenas
escancaradas de violência mútua? Ou os golpes nas lutas não são violência?
Difícil não considera-los assim, não é? A Bíblia faz menção ao procedimento do cristão
em várias passagens, dentre elas o ensino de Jesus Cristo: “Mas eu lhes digo: Não
resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a
outra” (Mateus 5:39).
Aqui aparece novamente o termo ferir, que no grego rhapizō, quer dizer bater, ferir com as mãos, enfim, agressão contra
outra pessoa. Nesse trecho Jesus usa a ilustração da agressão física para
condenar a retaliação, ou seja, pagar o mal na mesma moeda. Se o próprio Cristo
usa essa ilustração como uma tentativa de ensinar a renúncia pessoal, como
poderia uma briga travada em um ringue produzir tal comportamento? Será que ao
receber uma pancada, o lutador não alimenta dentro de si um desejo de revidar a
agressão? Será que ao ser golpeado ele pensa no próximo como alvo de amor? Precisamos
ser sinceros conosco mesmo e com a natureza humana para e responder essa
pergunta.
A
orientação do apóstolo Paulo a respeito da finalidade do agir cristão, em 1
Coríntios 10.31, diz assim: “Assim, quer vocês comam, bebam ou façam
qualquer outra coisa, façam tudo para a
glória de Deus”. Como acreditar que
esbofetear outra pessoa, sufocá-la, chutá-la, tirando sangue da mesma, a ponto
de deixa-la desacordada, pode trazer glória a Deus, o criador do ser humano,
que foi feito à imagem e semelhança dele mesmo? Sabe o que significa a expressão
“imagem e semelhança”? Significa que fomos feitos como representantes de Deus
diante de toda a criação, que temos mais valor do que qualquer outra criatura.
É isso que traz a dignidade ao ser humano, e não a tentativa do homem de se
impor sobre os demais. Se temos alguma dignidade, é porque fomos criados à
imagem e semelhança do próprio Deus, o nosso criador. Portanto, durma com esse
barulho e tente conciliar essa verdade com a prática competitiva do MMA. É possível
dar glória ao criador de todas as coisas indo contra a integridade física da
sua mais sublime criação: o ser humano?
Bem, aqui termino a minha breve reflexão, ciente de que o assunto não se
esgota nessas linhas acima. Termino essa análise, convidando você,
especialmente cristão, a refletir em fatos e não em gostos pessoais e achismos.
Obrigado pela disposição de ser desafiado a pensar mais nas implicâncias dos
nossos atos e comportamentos. Deus lhe abençoe com a presença maravilhosa do
seu Espírito, o único meio de aceitarmos as verdades de Deus para nossas vidas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário